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22/09/2014 12h38 - Atualizado em 22/09/2014 12h38
Pesquisa colocou a Amazônia na rota mundial de testes da vacina contra o Rotavirus.
Da Redação
Portal FADESP
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Pesquisa colocou a Amazônia na rota mundial de testes da vacina contra o Rotavirus.
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Equipe do IEC responsável pela pesquisa.

  A vacina contra o Rotavírus, hoje distribuída nos postos de Saúde brasileiros e de outros países, teve a eficácia e os efeitos colaterais estudados pelo Instituto Evandro Chagas (IEC), no Pará. Desde que as doses começaram a fazer parte do calendário brasileiro de vacinação, a mortalidade de crianças com até um ano de idade, causada por gastroenterite, já caiu 57% no Brasil.

  Os estudos fizeram parte de um projeto de pesquisa realizado em onze países da América Latina e de outros continentes. O financiamento da pesquisa global é da Glaxo Smith Kline, do próprio IEC, além da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) e do Ministério da Saúde (MS), órgãos aos quais o instituto é vinculado. No Brasil, o IEC integrou parte das pesquisas (englobando as fases II, III e IV). A segunda e a terceira etapas foram realizadas entre os anos de 2001 e 2006, com o apoio da FADESP.

 A fase II _denominada Duplocego, Randomizado, Controlado por Placebo, Multinacional e Multicêntrico para Avaliar a Eficácia e a Imunogenicidade de Duas Doses da Vacina de Rotavírus Humano Atenuado Vivo por Via Oral"_ iniciou-se em 2001 e foi concluída em 2003. Em dois anos, os pesquisadores acompanharam a situação clínica de cerca de 800 crianças, todas moradoras de Belém. Parte delas tomou as doses da vacina, via oral, sendo uma aos dois meses de idade e outra aos quatro meses. Outra parte tomou placebo, uma substância sem qualquer efeito, a título de controle.

 Assim, foram realizados testes para verificar a eficácia e a imunogenicidade da vacina contra o Rotavírus. A primeira é medida pela capacidade das doses protegerem a criança, fazendo com que elas não contraiam, principalmente, a forma mais grave da doença. A segunda é conferida pela capacidade da vacina induzir a produção de anticorpos. O acompanhamento das crianças apontou a eficácia superior a 80% e a análise das amostras de sangue demonstrou a imunogenicidade satisfatória, com cerca de 70% de respostas imunes pós-vacinação.

  Segundo o coordenador da pesquisa e chefe do Serviço de Virologia Geral do IEC, Alexandre da Costa Linhares, os dois quesitos ofereceram indicadores claros de que se tratava de vacina eficaz e imunogênica. Ele revelou também que não foram identificados efeitos colaterais, como febre e diarréia, mas era preciso expandir as análises para verificar se a eficácia se manteria em um número maior de crianças, sem oferecer risco de intussuscepção (ou invaginação intestinal) a médio ou longo prazo. A intussuscepção, geradora de obstrução intestinal, é uma complicação já observada no uso de outra vacina, produzida nos Estados Unidos. Em geral, o efeito adverso é de evolução grave se não houver rápida intervenção. Por causa desse episódio, o controle sobre novas vacinas tornou-se necessário.

  Após esses testes, foi iniciada a fase III, intitulada Duplo-cego, Randomizado, Controlado por Placebo, Multinacional e Multicêntrico, para Avaliar a Eficácia, a Segurança e a Imunogenicidade de Duas Doses da Vacina por Via Oral, de Rotavírus Humano Atenuado, Vivo, em Bebês Saudáveis. Essa etapa do estudo envolveu aproximadamente 4 mil crianças, transcorrendo entre 2003 e 2006. Das pesquisas, confirmou-se a proteção vacinal e, vale frisar, a ausência de qualquer risco de intussuscepção. Na América Latina, o estudo exigiu o recrutamento de mais de 60 mil crianças.

 "Ao terminar os estudos, em 2006, chegamos a duas conclusões: a vacina protegia, confirmando o que demonstrou a fase II. Ficou claro que a vacina confere proteção de pelo menos 80% contra as formas mais graves de gastroenterite por rotavírus e é segura", observa.   

  De acordo com Linhares, os números positivos apontados pelo IEC se repetiram nos outros países onde a pesquisa também foi realizada. Com isso, deu início ao processo de introdução gradativa da vacina em pelo menos uma centena de países no mundo. O número dos que utilizam a vacina, contudo, ainda não representam sequer 30% do total de países que precisam dela. A maioria dos que não adotaram a imunização até agora está nas regiões mais pobres da África e do Sudeste Asiático.

  Durante a realização dos dois primeiros estudos (fases II e III) realizados pelo IEC, coube à FADESP gerenciar os recursos, comprar insumos e equipamentos, além de contratar o pessoal de apoio. Nessas duas etapas foi necessário contratar, por exemplo, pediatras, enfermeiros, visitantes domiciliares e laboratoristas, entre outros profissionais. Para Linhares, a formação de uma equipe mais ampla também rendeu frutos institucionais. "Acumulamos experiência em dez anos: de campo, de manejo de estudos e no laboratório. Essa experiência se aplicará em outros estudos. Já temos equipe treinada, então, os novos desafios serão enfrentados com a vantagem da experiência acumulada", avalia.

Estudos seguem reafirmando a eficácia da vacina

  Cumpridos os testes de eficácia e segurança, a vacina foi aprovada para a comercialização. De forma pioneira no mundo, o Brasil, onde nascem cerca de 3 milhões de pessoas por ano, decidiu introduzir, a partir de 2006, a vacinação no Sistema Único de Saúde (SUS).

  Os estudos, no entanto, prosseguem. O mais recente provou que o cotidiano das crianças não interfere no resultado. De 2008 a 2011, o IEC acompanhou cerca de 600 crianças, com até dois anos de idade, que estiveram internadas por causa de gastroenterite, configurando a quarta fase da pesquisa. Nessa etapa, foram identificadas as crianças que haviam tomado e as que não tomaram a vacina. Ao final, foi feito o confronto de resultados.

 "Os estudos mostraram que, mesmo em condições reais, a eficácia foi reafirmada", atesta o coordenador. Segundo Linhares, foi nessa fase, apoiada pela Fundação Instituto para o Desenvolvimento da Amazônia (FIDESA), que se observou se a eficácia estava associada ao rígido controle da aplicação das doses no IEC.

  Na fase IV, ao contrário das anteriores, as crianças já recebiam a vacina nos postos de Saúde. Como o acondicionamento do produto seria de responsabilidade das unidades e a obediência ao calendário depende da vigilância das mães, a eficácia poderia ficar comprometida. Os testes, mais uma vez, reafirmaram a eficácia da vacina, mesmo sob as condições de uso rotineiro. E, a fim de obter os dados para a pesquisa, foi montado um sistema de vigilância tanto em três grandes clínicas hospitalares de Belém, quanto nas residências das crianças. Tal qual as etapas anteriores, a fase IV abrangeu todos os bairros de Belém.

  Atualmente, uma nova fase está sendo executada pelo IEC para verificar os efeitos da vacina nos tipos circulantes de Rotavírus. Os trabalhos foram realizados entre 2008 e 2011. As análises dos dados, porém, ainda estão em processamento para posterior divulgação dos resultados.

Vacina colabora na redução da mortalidade causada pelo Rotavírus

  O Rotavírus foi identificado pela primeira vez em 1973, em Melbourne (Austrália). No Brasil, a espécie foi reconhecida pelo Instituto Evandro Chagas (IEC), em Belém, em 1977. O vírus é o maior causador da gastroenterite grave, doença que provoca diarreia e vômito, em crianças menores de 5 anos de idade. O quadro clínico da criança infectada se agrava rapidamente e, se não tratado a tempo, com a reidratação, pode levar ao óbito em até dois dias.

  Segundo Linhares, coordenador das pesquisas de Rotavírus no IEC , em um ano, são registrados cerca de 453 mil óbitos de crianças menores de um ano de idade provocados pelo Rotavírus no mundo, representando uma média de 1,2 mil por dia. Grande parte das mortes é registrada na África Subsaariana e no Leste Asiático.

  O pesquisador explica que cerca de 40% dos casos de gastroenterites são provocadas pelo Rotavírus, daí a importância da vacina. Ainda assim, só 20% dos países já introduziram a vacinação em seus programas de Saúde. No Brasil, o acompanhamento dos registros de Saúde aponta para a redução da mortalidade e internação por gastroenterites em menores de 1 ano de idade, no período pós vacinação. As mortes diminuíram 39% e as internações, 48%, entre 1998 e 2008.

  Dados mais recentes, no entanto, já apontam que o número de mortes de menores de 1 ano de idade já caiu 57%, se comparado o período anterior e posterior à vacinação. O número de hospitalizações, por sua vez, caiu 27%.

  Houve queda, ainda, na quantidade de crianças com mais de 5 anos de idade que adoeceram por causa do rotavírus. O motivo é que elas ficaram menos expostas ao vírus porque, com a vacinação, ele passou a circular em menor escala no ambiente.

  Mais informações sobre o projeto, você encontra na Galeria (pesquisa I e pesquisa II) e no portal da Transparência.

Texto: Sandra Rocha (Ascom FADESP).
Fotos: Cedidas pelo pesquisador